é reconhecido que o tempo passou. por nós.
é um facto, que nos moldamos a algo que não somos. nunca fomos, ao contrário do que não se disse mas se julgou. estou sem cabeça para morrer por causas já perdidas, causas que nunca julgámos realmente poder vencer. constato o óbvio, mais uma vez: estou cansada. não lamento nada do que ficou para trás, lamento só o que não virá para a frente. tudo acaba, um dia. assim sendo, e quem sabe?, um até depois.

(deadcatinatophat.blogspot.com )

21h53

corpo sujo, é de nojo que te amo. é de fugir, e não chegou o fim do dia para que pudesse não estar. a casa ardeu, e permanecem insepultos os cadáveres. apagaste em mim o teu último cigarro, por amor, tu juraste minha besta! não me largues o pescoço, descamba-se-me a alma pela última avenida asquerosa das que pisaste, criatura vil. bicho louco, é de amor que te mato. não o suporto dentro de mim, ignóbil. de beijar-te, sabe-me a terra viscosa, verme! era de lótus, que trocaste por cardos; era de mar, o que trocaste por escória. mas, amor meu, é com o teu reflexo que justificas. eu, morri-te.


(fico por aqui.)

16h24

na parede, 2 chaves penduradas. anoiteceu cedo, aqui. papéis rasgados, pelo chão. ele garantiu-me a permanência. porta trancada. pesa-me a respiração. um gato - arrepio!, e um beijo de boa noite, insípido. jazz enrolado no gira-discos. é pelo lençol que se guia.
na parede, 1 chave pendurada. ainda não amanheceu, lá. copos frívolos, tombados na mesa. ele garantiu-me o regresso. porta aberta. cheira a tabaco. a chuva atacou - indiferença. e um abrir de olhos, tardio. silêncio ensurdecedor, morto. é pela calçada que se guia.

o rádio calou-se. as paredes fecharam-se em uivos de dor, como vítimas de metamorfoses irreversíveis. os armários juraram-se cegos e findaram-se loucos. a porta, negra e agora fechada, garantiu-me em susurros que do outro lado de si, sentia ainda a tua testa pousada sobre o teu braço, a tua respiração pausada, o arrependimento em teus lábios. curiosamente, só não sentiu o bater do teu coração.

13h48

a chuva arrastou até mim a tua fragrância, o vento beijou-me com o teu olhar, a multidão julgou-se indiferente. e, por entre as salas, os corredores, as paredes gastas e as escadarias perpétuas, a chuva parou, o vento cessou e a multidão continuou indiferente, e nessa fracção de segundo, sorriste para mim - e tão tóxico veneno continua, ainda, a pairar pela minha mente, a acariciar o meu sub-consciente. e tão eternos me parecem os ponteiros, que se arrastam vagarosamente sob torturas em meu peito, fazendo de cada minuto uma última gota de ânsia, um espinho de loucura, um braço de insanidade. tudo, para te ver sorrir, só mais uma vez.

21h34

às vezes, surpreendo-me com a minha capacidade de fingir que "está tudo bem" e que "isso não me afecta minimamente".
e mais ainda, com o facto de estar a tentar mentalizar-me de que isso é verdade.

11h15

quanto disto foi real? o corpo reclama tudo aquilo a que tem direito. amaldiçoado seja nosso quarto, que entranhou em meus lençóis teu cheiro e que pelas noites me garantiu a solidão. amaldiçoado seja nosso quarto, que de tão teu, gravou nas rugosas paredes os segredos contados em cada beijo nosso e que, pela madrugada, mos roga como pragas que crestam a minha pele e me reclamam por carne nova. mas, amor meu, já nem os vermes me desejam, pois meu corpo sem teu, metamorfose inacabada, não passa agora de embalagem vazia, recipiente velho, invólucro de jazigo.
condeno também aqui, a efemeridade desse teu para sempre, que guardo ainda, gravado por mãos tuas, escondido em meu peito, num dos poucos recantos sóbrios que me permite a existência. lástima, que não seja de validade similar ao meu. entristece-me ainda, acordar frente-a-frente com o vazio, ou dizer-se até, com a tua fragrância de luto.
só de lembrar, meu amor, que juraste ficar, entranha-se-me a dor de quem, pela meia-noite, quis lembrar-te até ao esquecimento.